Parvathy Baul
Parvathy Baul
índia
Teatro Garcia de Resende
02 out / 21:00
O mestre de Parvathy Baul, o cantor e guru Sri Sanatan Das Baul, apontou claramente para aquele que acreditava ser o desígnio maior da sua discípula: estabelecer uma ponte entre o mundo ancestral dos mestres baul e o mundo moderno. E as suas instruções para cumprir esta missão foram simples: toma nota, arquiva e ensina. Desta forma, aprendendo com os seus antepassados do povo Baul, um grupo de músicos místicos da região de Bengala, cabe a Parvathy Baul espalhar as canções deste reportório, deixando que encontrem novos públicos e possam depositar os ensinamentos baul dentro de cada ouvinte. E é fácil perceber como a cantora espalha esta música, que se mistura com uma prática espiritual, ao escutar a forma como a sua voz serpenteia por entre as notas do ektara, o cordofone que vai tocando para acompanhar o seu canto. Podemos desconhecer o significado de cada uma das suas palavras, mas somos levados pela sua voz até um lugar de transcendência impossível de recusar.
Tarta Relena
Tarta Relena
catalunha
02 out / 21:00
Amigas de infância, há muito que Marta Torrella e Helena Ros sabem que há qualquer coisa de muito especial a acontecer quando juntam as suas vozes. Mas só depois da passagem por um grupo coral, de onde trouxeram uma preciosa intimidade com música sacra, renascentista, barroca e romântica, é que perceberam o quanto os seus vários interesses musicais podiam metamorfosear-se numa linguagem própria. É a curiosidade sôfrega a levar que as Tarta Relena tanto cantem afinadas por essas referências longínquas clássicas quanto pelas músicas tradicionais de várias regiões mediterrânicas. Às vozes, centro absoluto da sua música, juntaram no aclamado álbum de estreia, Fiat Lux, apontamentos electrónicos que se estendem como um tapete para as suas melodias entrelaçadas. A singularidade da proposta duo desaguou na criação de um género próprio a que chamam “folk tronadet [arruinada ou estragada, em catalão]” ou “gregoriano progressivo”. Tão enigmático quanto fascinante.

© Duna Vallès i Clàudia Torrents
Annie Ebrel & Riccardo Del Fra
Annie Ebrel & Riccardo Del Fra
bretanha
03 out / 21:00
O encontro entre a cantora bretã Annie Ebrel e o contrabaixista italiano Riccardo Del Fra aconteceu em 1996 e, pouco depois, esta incomporável união musical ficaria eternizada no álbum Voulouz Loar – Velluto di Luna, prémio Diapason d’Or 1999. Ebrel vinha dos seus dois primeiros discos (um registo a cappella e um colaboração com o grupo Dibenn), enquanto Del Fra se sediara em França e aproximara da música tradicional da Bretanha depois de uma década a acompanhar Chet Baker. Voulouz Loar ganharia a aura de clássico instantâneo pelo regresso a uma simplicidade em que a essência da música bretã se apresentava num despojamento contrário às aventuras electrificadas e orquestradas que então a fustigavam. Ao invés dessas modernizações, Ebrel cantava num tocante desamparo os gwerzioù (lamentos em bretão) e d’airs de danse, enquanto Del Fra pingava notas choradas pelo contrabaixo à sua volta. A recente reedição do álbum leva-nos agora à redescoberta de um mundo delicado e inebriante.
Saz’iso
Saz’iso
albânia
04 out / 21:00
Até à edição, em 2017, do álbum At Least Wave Your Handkerchief at Me, o saze era um género musical que pouco tinha viajado para lá das fronteiras da Albânia. Tinha viajado, é verdade, na bagagem daqueles que deixaram o país aquando do colapso económico de 1997, mas sobretudo como fio que ligava esses migrantes às memórias mais profundas da sua origem. Tudo mudou quando o produtor Joe Boyd (que trabalhou com Pink Floyd ou Nick Drake), há muito intrigado por uma gravação rudimentar que lhe chegara do Festival de Folclore de Giirokastër, decidiu partir para a Albânia à procura dos sons que o tinham encantado e juntou as vozes encantatórias de Donika Pecallari, Adrianna Thanou e Robert Tralo aos instrumentos que ajudam a dar forma a estes “blues albanianos”. Foram eles os protagonistas do álbum que espalhou o feitiço do saze pelo mundo, a partir de um reportório que, segundo descrição da revista Songlines, tem um efeito “do outro mundo, misterioso, melancólico e assombroso”.

© Andrea Goertler
Amélia Muge
Amélia Muge
portugal
05 out / 21:00
Cantautora discreta, Amélia Muge é um dos maiores tesouros da música popular portuguesa, trazendo, sem esforço, as raízes e as tradições para a contemporaneidade, num caminho que faz dela a mais justa seguidora de José Afonso, José Mário Branco e Fausto. Autora de fados cantados por Ana Moura, Camané ou Mísia, é no seu trabalho em nome próprio – engrandecido pela valorosa colaboração de António José Martins – que viaja entre os sons sorvidos na sua infância moçambicana, as profundezas das regiões portuguesas e o experimentalismo electrónico que conhecemos de Laurie Anderson. O seu último álbum, Amélias, lançado 30 anos após a sua estreia discográfica e logo carimbado como obra-prima da música nacional, transporta no título as muitas dimensões da sua música. Ao Expresso, dando uma impressiva imagem do tanto que cabe nas suas canções, Amélia Muge descreveu o disco como situando-se “entre o canto dos Neanderthal e o HAL 9000 de 2001 Odisseia no Espaço”.
Natch
Natch
cabo verde
06 out / 21:00
A História da música é fértil em descobertas tardias, colocando-nos diante de súbitos maravilhamentos desencadeados por homens e mulheres que, tendo chegado ao mundo com um dom extraordinário, passam décadas na sombra. Até ao dia em que um despertar colectivo tenta compensar os anos em que não ouvimos, por exemplo, a voz de Natch Eugénio Costa Santos. Nascido em São Tomé mas levado para Cabo Verde aos seis meses, Natch é uma daquelas vozes que parece existir fora do tempo, feita de uma doçura que inunda as “suas” mornas de uma vida passada nas ruas do Mindelo. Vocalista do grupo Kings, nos anos 80, e durante algum tempo cantando a troco das moedas de quem passava por aquele canto sem tecto, Natch é um conhecedor profundo da morna e da coladeira, os géneros que Cesária Évora espalhou pelo planeta. E é o encontro entre a sua história pessoal e o seu entendimento inesgotável das músicas locais que se desprende de cada sílaba que nos canta. Como se Natch e a morna fossem um só.
Lia de Itamaracá
Lia de Itamaracá
brasil
07 out / 21:00
Maria Madalena (Lia) quis que a ilha onde nasceu, Itamaracá, andasse sempre consigo palcos fora. Daí que tenha escolhido como nome artístico Lia de Itamaracá, espetando uma bandeira nesse território do litoral norte de Pernambuco. Mas a sua música é tudo menos uma ilha. Ainda que seja conhecida como a “Rainha da Ciranda”, as suas canções são um lugar de cruzamento e mestiçagem, impregnadas de ritmos tradicionais como o coco, o maracatu, o frevo, o maxixe e, claro, a ciranda. Entre composições próprias e clássicos da MPB, a septuagenária Lia de Itamará deixa baixar em si o espírito da ciranda – dança em que as pessoas se unem pelas mãos e formam um grande círculo, promovendo um sentido de celebração colectiva. É esse mesmo sentido de festa e de partilha que esta lenda da cultura nordestina planta em palco. Ou não assumisse como lema de vida que “a tristeza não pode com quem é alegre por natureza”.
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